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ECONOMIA CIRCULAR: CONSIDERAÇÕES SOBRE SUA LÓGICA, ORIGENS E SENTIDO FINANCEIRO

 

Dagoberto Lorenzetti

04/05/2017

Em julho de 2016 a população humana na Terra está próxima a 7,440 bilhões. Até o final do ano mais outros 40 milhões de pessoas, correspondente à diferença que vai haver entre o numero de nascimentos e passamentos no segundo semestre deste ano, “sentar-se-ão à mesa para jantar”. Estima-se que em 2030 sejamos cerca de 8,5 bilhões.

Cerca de 60% deste contingente estará nas cidades. Em 2009 havia algo no entorno de 1,8 bilhão de pessoas na classe média. Hoje este número aproxima-se de 2,5 bilhões. Em 2030, estima-se, o número de consumidores de classe média será de 4,9 bilhão, ou seja, cerca de 3 bilhões de consumidores se somarão aos 2,5 bilhões que, hoje, já geram enorme pressão sobre os recursos naturais, exaurindo recursos não renováveis, contaminando a biosfera e ultrapassando a capacidade de recuperação dos sistemas vivos.

Nossa “pegada ecológica”, conceito desenvolvido por Mathis Wackernagel e William Rees, ultrapassou há anos a capacidade de recuperação do planeta. O Global Footprint Network, organização fundada e dirigida por Wackernagel, através desta estatística (a pegada ecológica) compara a taxa de recuperação da natureza com a taxa de destruição que a humanidade lhe impõe. A pegada ecológica compara a taxa em que a natureza produz capital natural, fornecendo alimentos e outros insumos, bem como recuperando solos, águas e ar, com a taxa em que as atividades econômicas, no afã de atender a demanda crescente por materiais, serviços e informação, consomem esse mesmo capital natural.

Em 1986 a destruição provocada pelo consumo foi exatamente contraposta pela capacidade de recuperação da biosfera. Em outras palavras, ultrapassamos no dia 31 de dezembro de 1986 a capacidade que o planeta tinha de responder aos danos que nosso consumo e as práticas empresarias-industriais correntes lhe infligiam.

Precisávamos exatamente de um planeta para atender o consumo. Em 2016 ultrapassamos a capacidade de recuperação do planeta por volta do dia 15 de agosto, ou seja, já são necessários 1,6 planetas para atender os níveis de consumo atuais. Se 2,5 bilhões de consumidores demandam 1,6 planetas, cetera paribus, 4,9 bilhões de consumidores devem demandar mais de 3 “Planetas Terra” em 2030. E só temos um. Nossa economia, linear, extrativa, contaminante e abusiva não é compatível com os limites da biosfera. As matérias primas e os combustíveis fósseis são não renováveis, não se recuperam no horizonte de tempo relevante para a nossa condição humana.

As pessoas também são afetadas pela maneira “usual” de produzir. Não apenas por problemas de contaminação derivados da agricultura industrial e da produção de bens tangíveis mas também pela inequidade que, amiúde, acompanha o atual modelo. Matérias primas, em geral, são extraídas principalmente de países do terceiro mundo. Esses países perdem suas belezas naturais, têm suas águas e suas florestas destruídas. Ocorre, em larga escala, contaminação da atmosfera, dos solos e da água de rios, lagos e mares, o que leva à destruição da biodiversidade e a doenças e sofrimento para enormes contingentes populacionais, não apenas nas regiões mais pobres pois não há fronteiras fechadas na biosfera.

Há ainda importantes impactos econômicos negativos do atual modelo e das tecnologias de produção e consumo que predominam em escala planetária. Os preços das commodities, por exemplo, refletem o fato que os recursos naturais estão sendo usados muito além do razoável. Como resolver este quebra cabeças? Tentando otimizar as cadeias de suprimento neste modelo linear? Não consumindo?

Como diz o químico alemão Michael Baumgart .“ser menos mau não significa ser bom…”. O simples aumento de eficiência não é a resposta. É necessário recorrer a outro paradigma. A uma visão diferente. A economia circular, termo que teria sido inicialmente cunhado pelos economistas David Pearce e Kerry Turner, Inspira-se nos sistemas vivos, é “restaurativa e regenerativa” por projeto e por intenção, não produz resíduos e não polui. O conceito, entretanto, se apoia em ideias surgidas em outros momentos da História e tem origens difusas.

Iniciativas relevantes para o estudo dos impactos das praticas industriais, empresariais e governamentais correntes, como a do O Clube de Roma, relatados em parte, no conhecido “Limites ao Crescimento” de 1972, assim como outras contribuições de peso passaram a contribuir para o surgimento de novas correntes de pensamento que conduzem a economia circular.

Certamente catalisaram mudanças de visão e ajudaram a plantar as sementes da economia circular. O arquiteto e economista Walter Stahel que foi um dos que concebeu a ideia de uma economia de serviços e é considerado o criador do termo e do conceito do “Berço a Berço” (“Cradle-to-Cradle”). A ideia é que os produtos devem ser projetados sem toxicidade e para serem “recirculados” como o que acontece com materiais na natureza.

Não descartados como lixo, frequentemente tóxico, em aterros e lixões. O conceito do “berço-a-berço” se somou ao de design regenerativo, criado pelo professor John T. Lyle e ao da Biomimética, ou seja , usar a experiência e os experimentos feitos pela natureza ao longo de 3,8 bilhões para inspirar a criação produtos, processos e soluções para as necessidades e desejos humanos, e passou a influenciar muitos outros pensadores.

Michael Baumgart e William McDonough, por exemplo, aparentemente impregnados por estas ideias, produziram, em 2002, o texto “Cradle-to-Cradle”, que propõe a criação de produtos úteis e duráveis, produzidos com materiais que possam ser indefinitivamente reciclados. O livro foi traduzido e publicado no Brasil com o título “Cradle-to-Cradle: criar e recriar ilimitadamente”, em 2014.

O conceito da economia circular não se limita à economia ligada à produção e consumo de bens e serviços. Implica em mudança do uso de combustíveis fósseis para o uso de energia renovável. Considera a diversidade como uma característica dos sistemas resilientes e produtivos, discute o papel do dinheiro e das finanças no fomento e na manutenção do status quo, demanda alocação precisa e honesta dos custos totais de produção e sugere novas ferramentas de medição de desempenho econômico.

Seus materiais e seus dejetos constituem alimento para a vida na biosfera. Os fluxos materiais na economia circular são de nutrientes biológicos, projetados para circular na biosfera de maneira segura, e de nutrientes técnicos, que evitam toda espécie de produto químico tóxico, e que são projetados para circular com alta. Qualidade nos sistemas produtivos sem reentrar na biosfera. Certos tipos de plástico, metais e outros materiais especiais se incluem nesta segunda categoria.

Uma importante fonte de informação é a Fundação Ellen MacArthur, que tem por missão “acelerar a transição para uma economia circular” . A Fundação comunica ideias e insights inovadores através de pesquisas, relatórios, estudos de caso e textos sobre a economia circular. Disponibiliza também o site Circulate (http://circulatenews.org/), que trata de tópicos atuais e de interesse para a economia circular.

Estima-se que cerca de 7 kg de lixo eletrônico (computadores, televisão, celulares, etc.) seja produzido hoje, para cada habitante do planeta. Isso dá um volume de cerca de 52 milhões de toneladas métricas neste ano de 2016. Em 2015, por exemplo, foram vendidos cerca de 1 bilhão e meio de s m a r t p h o n e s (1. 4 2 1 b i l h ã o d e u n i d a d e s ,v i d e http://www.statista.com/statistics/263445/global-smartphones a l e s – b y – o p e r a t i n g – s y s t e m – s i n c e – 2 0 0 9 / e ]http://unu.edu/media-relations/releases/step- launchesinteractive-world-e-waste-map.html#info ).

Celulares produzidos sob a perspectiva da economia celular seriam primeiro “recirculados” em ciclos de manutenção e “upgrade” durante os primeiros anos de uso pelo comprador original. Seria possível, em seguida, aceitar como parte de pagamento ou comprar o celular do primeiro usuário e revende-lo para uso em outros mercados.

Somente depois de explorar essas possibilidades o celular poderia ter seus materiais reciclados. Se os custos totais, inclusive os das externalidades negativas fossem levados em consideração, não haveria o que refutar no que tange à lógica da abordagem da economia circular. Usando as práticas correntes de alocação de custos, a Fundação Ellen MacArthur, como informa Ella Jemsin, chegou a algumas conclusões com o estudo de casos de empresas que já fazem isso ou parte disso e concluiu que a economia circular é rentável.

Mais do que isso. Descobriu que o REUSO é a alternativa mais rentável, com uma margem de seis dólares por celular, após dedução de todos os custos. Em seguida vem a reciclagem, com cerca de dez centavos de dólar por unidade. Muito pouco mas melhor do que nada. E é melhor do que a remanufatura, que deu margem de contribuição negativa. O estudo foi feito em países desenvolvidos, onde o custo da mão de obra é alto.

 

 

Dagoberto Lorenzetti – Doutor em Administração de Empresas pela FEA/USP, Mestre pela The Johns Hopkins University (Bloomberg School of Public Health); Especialista em Analise de Sistemas pela FAAP, Pós-Graduado em Engenharia Nuclear pela Escola Politécnica da USP e Engenheiro Mecânico pelo ITA. Professor convidado, e professor titular em cursos de engenharia e administração. Membro fundador do Instituto Bioma.